terça-feira, 23 de outubro de 2012

Ivan Campos



Ivan Campos Moreira
 
Nasceu em 08 de novembro de 1960 na cidade de Rio Branco-Acre, cedo iniciado nas artes, com influência de histórias em quadrinhos, Ivan Campos desenvolve-se de forma autodidata, descobrindo através de técnica própria, um estilo expressionista muito particular, quase abstrato, com uma temática quase sempre amazônica, que o tornou conhecido e reconhecido em sua comunidade.  



O artista visual Ivan Campos, numa esplêndida foto de Talita Oliveira.


Relicários

Um relicário de sortilégios, surpresas mimetizadas nas densas florestas psicodélicas.
Seres oníricos camuflados nas cores, formas e movimentos com sonoridades incrustadas nas magias.
Mundos arquetípicos transcendem com naturalidade... Reflexos de resplandecências de luzes, à flor das águas, à terra em devaneios de invenções, seres das matas encantadas: as luzes caleidoscópicas  inventam  naturezas orgânicas e surreais, onde os olhos encontram reflexos misteriosos, confundem-se e de ímpeto arrebatador  encontram situações mágicas.
Ivan Campos em inspirações e ritmos, propõe renovações de olhares. Um duende fragmentado na imensidão da criatividade. Possibilidades fantásticas de intervenções, invenções e reinvenções em perspectivas  surpreendentes das simbioses de imagens, delicadas verves escondidas nas nuances que se revelam em mirações fluídas, espontâneas...
Linhas transcendentais renovam fragrâncias  em substâncias químicas, impressas nas folhas, raízes, flores e nos corações impretéritos, difusos nas artérias da estética.
No silêncio das matas o pulsar itinerante das cores, o refazer das minúcias, eclipses e prismas, expandindo o campo do olhar.
“...Mas, através da imagem revelada existe outra mais fiel à realidade. E, no fundo dessa imagem, há outra e mais outra atrás da última e assim por diante, até a verdadeira imagem daquela realidade misteriosa, absoluta, que ninguém jamais verá.”

Danilo de S’Acre



                                             Seringueiro, 1988.                        





Overmundo

Artista acreano ganha prêmio

Rosiane Farias –Rio Branco-Acre
9/3/2006

Primeiro lugar do Salão Hélio Melo de Artes Plásticas, com a tela Alicerces da Terra, o artista plástico acreano Ivan Campos (44) desde os oito anos pilotava entre pincéis e tintas, criando os desenhos e pinturas para os bordados da mãe, sua maior incentivadora. Ivan recebeu grande influência das histórias em quadrinhos, desenvolvendo sua arte de forma autodidata, descobrindo através de técnica própria, um estilo que ele mesmo prefere não definir, mas que para os cultores das artes plásticas, passeia entre o expressionismo muito particular, quase abstrato, realismo e surrealismo. "Uns dizem que é uma pintura espiritual, nostálgica. Prefiro não definir".

As telas, em sua maioria, mergulham nas temáticas amazônicas. Muitas delas estão nas mãos de apreciadores nos Estados Unidos, Japão, Alemanha, Itália, Argentina e Brasil. Duas de suas obras foram selecionadas para o Projetéis de Arte Contemporânea. Rede Nacional de Artes Visuais-Redemergências: uma das abordagens possíveis de um novo olhar sobre a produção artística atual, em exposição no mês de outubro de 2005, na FUNARTE (RJ). Projéteis contou com a participação de artistas de todos os estados e regiões do Brasil.





Ivan Campos, por Danilo de S'Acre


Admirador da obra de Rembrandt, nesta entrevista o artista fala de sua obra, analisa as artes plásticas no Acre e faz um carinhoso elogio a obra de Hélio Melo.

Como é para você ganhar o primeiro lugar no Salão Hélio Melo de Artes Plásticas?

Na verdade não esperava que esse meu trabalho ganhasse, pois é uma pintura fora da nossa realidade da floresta, uma pintura marinha, não contava com isso, trouxe essa tela para compor o espaço. Me sinto gratificado.

Qual o olhar que você traça sobre a tela Alicerces da Terra, vencedora do Salão? Como veio essa inspiração com o mar?

É a minha terceira pintura sobre o fundo do mar. As outras duas que fiz são telas grandes e estão em São Paulo. Essa tela me cobrava pelo azul, a maior parte das telas que expus no Salão são nessa tonalidade. Tava em casa de bobeira, e veio aquela idéia de fazer uma canoa na praia, mas achei melhor colocá-la dentro do mar. Levei uns dois meses trabalhando nela, o equilíbrio de cor, forma, profundidade.

Como chegam essas imagens para você?

Elas já estão dentro de mim. A mente humana é como um computador que arquiva dentro da gente as imagens, existe algo lá dentro que guarda toda essa parafernália. Uma vez estive no Rio e me pediram para pintar coisas do mar, já que sempre estive ligado mais à floresta. O mar ficou guardado em meu "arquivo". Não saiu como eles queriam, pois a canoa está no fundo do mar furada. (risos)

Você situaria sua obra em alguma escola?

Apenas procuro aprender a pintar. Sou uma pessoa que não sabe pintar ainda. Todo dia digo isso para mim, pois preciso me aprofundar cada vez mais, ser um cara completo. Na verdade estou engatinhando, apesar de pintar a muito tempo, vinte anos, não sei nada. Sobre a definição, não tenho idéia onde o meu trabalho se enquadra, se é realismo, surrealismo, abstrato. Deixo ao critério de quem está expectando. Uns dizem que é uma pintura espiritual, nostálgica. 



Como é para você ser artista plástico?

Creio que na minha família não vai ter mais ninguém assim, porque os meus guris não querem saber de pintura. Geralmente acho que as pessoas enxergam o artista plástico apenas com um lado maldito. O pintor vive à margem da sociedade. O cantor ganha um CD de ouro, os atores as suas estatuetas, o jogador a sua chuteira de ouro e o artista plástico o que ele ganha? O pintor pinta porque é uma missão dele. O reconhecimento na maioria das vezes chega, quando ele já está de "osso branco". A obra dele fica, depois que foi para o além.

Que análise você faz das artes plásticas no Acre?

Na realidade as artes plásticas no Acre engatinham, não pelo lado do artista. Faltam espaços, galerias e produção para tornar as obras reconhecidas. Mas, vejo que novos espaços estão sendo criados, como o Porão da Tentamen, que abrigou o Salão. O próprio evento realizado pela Associação dos Artistas Plásticos do Acre-AAPA em parceria com a Fundação Elias Mansour-FEM é positivo. Os nossos artistas estão num grau bem avançado quanto a seus trabalhos. Nossa pintura em sua maior parte não é acadêmica. Eu por exemplo, venho pintando "por cima da pedra", aprendi comigo mesmo.

É verdade que você pinta a maioria de suas telas deitado?

Sim, mas também em pé e de cócoras. Deitado é porque o material que uso, dependendo do preparo da tinta, se deixar a tela em pé ela escorre. Tenho que deixar a tela no plano.

O resultado cria várias dimensões?

Fica ao critério de quem ver. Quem sou eu para dizer que é de uma forma ou outra, porque senão vou conduzir a coisa. Mas, posso dizer que combino a cor e a forma, muitas vezes a cor esconde a forma e a forma esconde a cor. É por isso que o apreciador necessita fazer o movimento de aproximar e afastar.

Algum artista inspirou a sua obra?

Tenho grande admiração pelas pinturas de Rembrandt, para mim é o maior pintor que já existiu na face da terra. Tive poucas oportunidades de ver o trabalho dele, mas sempre procurei observar que é algo que existe porque estamos vendo, e se jamais tivesse visto não daria para imaginar que existia. Me inspiro na obra dele.

Você costuma produzir quantas obras por ano?

Na base, dependendo da dimensão, três a quatro telas. Minha pintura não é comercial. Não tenho a obrigação de trabalhar todo o dia. A minha pintura é uma coisa de vontade, se não tiver, não tenho como pintar. Não é que espere o momento, às vezes estou com vontade, mas
não dá. Fica um vulcão dentro de mim. Se eu não cuidar de colocar aquilo para fora, passa.

              O que você diria sobre a pintura de Hélio Melo?

Uma coisa que me instiga muito em sua obra é a pessoa do Hélio Melo. Uma pessoa bem adulta que traz à tona aquele conceito de criança em seus traços. É difícil um adulto desenhar como uma criança e vice-versa. Ele passava entre essas duas coisas, não tinha um ponto de partida. A pintura do Hélio traz uma criança iluminada, e quem via o Hélio, enxergava essa mesma criança irradiando nele. Esse lado que me instiga. Um universo muito louco, só um Hélio Melo para fazer.









O artista Ivan Campos


...Eu me considero filho da natureza. Nasci aqui... É o que me cerca, o que me dá energia, que me incentiva. Me dá saúde também... E até um certo ponto, alegria. É a floresta mesmo.
A floresta é o meu mercado de prateleira. É onde eu escolho o que quero pintar. É como um supermercado, eu vou lá e escolho o que quero.
O universo da floresta pra pintar é infinito. Quando vou pintar, primeiro peço licença lá por cima e também peço licença aqui em baixo também. Assim é na terra como é lá no céu.
O interessante do trabalho é o primeiro traço e o último: o que abre e o que fecha.
A minha pintura é fundo de quintal mesmo. A gente aprende pelas beiras da cerca, como o povo diz, é autodidata. Aprende sozinho. Não posso dizer que aprendi, eu tô aprendendo.
A pintura é como a música, é uma coisa infinita, é evolutiva...

Trecho do documentário Rua Netuno- Morada do sol: Retrato de Ivan Campos, de André Sampaio.

Documentário:
Rua Netuno-Morada do sol.
Retrato de Ivan Campos.
De André Sampaio
Produção:
Carcará Filmes
Funarte
Inventarte


                      





Ivan Campos, atualidade e personalidade

Certamente a tarefa do pretenso crítico de arte é das mais ingratas, vez que não é só decidir sobre o valor das obras, mas principalmente cobrir o espaço existente na comunicação artista-obra-espectador, tarefa essa nem sempre cumprida, sobretudo neste momento de crise da pintura de cavalete, de pulverização dos parâmetros convencionais dos estetas. Aliás, as regras estéticas, como a legislação civil, tiveram importância na medida em que evitava o caos, também desprovida de força criadora, só permitiu criações honestas e banais. A concepção acadêmica de obras de escola, submissa a um estilo canônico antecedeu a noção revolucionária de obras pessoais e originais.  Em arte como em política, o indivíduo denuncia a autoridade estabelecida. Kant desfere o golpe de misericórdia contra a estética acadêmica e a noção canônica. Na primeira parte da sua Crítica do Juízo, ele estuda o julgamento estético em quatro proposições que definem o belo:
1ª. O belo é objeto de uma satisfação pura, livre de qualquer interesse. O agradável atinge somente os sentidos. A presença do objeto é indispensável e a satisfação é individual;
2ª. O belo agrada sem conceito, isto é, sem a ajuda de um raciocínio, sem que haja necessidade (nem possibilidade) de provar a beleza. O bem pode ser provado, explicado, pois uma boa ação liga-se a uma doutrina moral. O belo não tem provas, não tem referências, uma vez que é inimitável. Nenhuma crítica poderá sugerir a beleza de um quadro, é preciso ver a própria obra;
3ª. O belo é o objeto de uma finalidade sem representação de fim. O útil sugere um objetivo, uma utilização: sabe-se exatamente para que serve o objeto. O belo ao contrário não revela sua razão de ser. O belo reconcilia em nós a razão e a imaginação; e
4ª. O belo é objeto de uma satisfação universalmente necessária. Enquanto os julgamentos da razão são prudentes e provisórios, o belo é objeto de um julgamento absoluto. Esse julgamento é formulado com segurança como válido para todos os seres humanos. Essas proposições tornam evidentes as inutilidades da crítica canônica: qualquer pretensão de formular as regras e as receitas do belo, qualquer crítica dedutiva por referência a um dogma são por definição condenados.
A arte de Ivan Campos é certamente hoje no Acre a que mais reúne atualidade e personalidade, qualidades que, somadas ao gradativo progresso que o artista, com muita responsabilidade se impõe, resultam em algo extremamente edificante para o momento histórico da arte acreana, no afã de se afirmar como tal, e à despeito do abandono oficial e não oficial da comunidade e seus comandantes. 
Gradativamente melhorada, a obra de Ivan Campos não deixa de conservar, em sua novidade, a capacidade de atrair e enfeitiçar o espectador, convidando-o a uma viagem de contemplação e prazer, sob o tempero da expectativa e da emoção, fatores determinantes de seu expressionismo marcante, irresistível, onde é impossível estar indiferente ao apelo do autor. Ivan supervaloriza as cores, em detrimento das formas, mas estas formas estão ordenadas e delimitadas meticulosamente no imenso labirinto em que se pode dispensar o fio de Ariadne, para não correr riscos. Essas formas-guias são também formas-muros e não são nada monótonas: quase sempre premiam o ávido caminho dos olhos, com seres reais, como que saídos de esconderijos atemporais, sob a onda rítmica que percorre em policromias suaves o suporte, contribui de forma decisiva para o encanto do conjunto todo.
Iniciado autodidata, como todos os que se dedicam hoje à arte no Acre, Ivan desde cedo, optou e se embrenhou na manifestação expressionista que caracteriza sua obra, sempre guiado por uma intuição estética quase mediúnica, ele criou e consolidou seu estilo sem que se possa dizer que conscientemente sofreu influências direcionais de seus contemporâneos, sendo seu vértice de inspiração, a natureza e as visões de seu universo de infância, como os rios e barrancos de uma província nascente, esta certamente, a contribuir diretamente para seu acervo iconográfico em formação, a determinar inclusive suas renúncias ao pincel, mas não o abandono. Remanescente da ainda prolífica década de 80, desde quando o artista passa a reunir participações em muitos eventos coletivos, inclusive no exterior. Contrariando ao abandono e o desestímulo que se impõe em sua comunidade, ele retoma sua arma, e nos apresenta suas últimas experiências neste campo.
É, portanto nesta sua primeira exposição individual, que o autor se redime dessa divida acumulada para com a comunidade e, sobretudo para com a posteridade, (não por escassez de produção, é claro, pois sempre lhe foi muito difícil reunir um acervo de mais que três trabalhos, devido a grande procura por seus trabalhos) o que sempre o forçou a participar mais das coletivas. Ressaltando-se que a dificuldade em reunir seus trabalhos, é que a maioria sempre saiu do Estado e do País.
No limiar de mais de um século de ebulição, de guerras e talvez do maior avanço tecnológico experimentado pela humanidade, a arte atinge (e supera) seu apogeu, atuando como uns termômetros dos vários pontos ditos civilizados do planeta, indicando falhas, propondo direções e, sobretudo sintetizando o grau evolutivo dos vários inconscientes coletivos, que a despeito da crescente globalização, sobrevivem, consolidam-se e crescem, e principalmente se mostram ou são descobertos.
No Acre temos uma defasagem muito grande em relação às artes em geral e, sobretudo às artes contemporâneas no país, isso é quase sempre atribuído a sua idade ou ao nível intelectual daqueles que participaram e participam de sua formação. Mas esse atraso, que permanece pela falta de formação (ou educação como queiram), certamente continuará até que a comunidade se conscientize da real importância da arte em seu evoluir, que junto à sua memória, constituem o legado mais valioso que qualquer outra riqueza fictícia e escravizadora.

          Dalmir  Ferreira
             Rio Branco-AC, abril de 1988.

 










































                                              

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