RELICÁRIO VISUAL DO ACASO
Danilo de S’Acre
Sempre fui fascinado por imagens. Desde quando descobri a visão. Aprender a olhar as coisas da natureza e as possíveis nuances de beleza do universo.
Sou artista visual. Este conceito e privilégio nos dá variadas e infinitas definições e possibilidades de visualidades.
Quanto à minha relação com a fotografia, sempre foi constante, mesmo quando não possuía uma máquina fotográfica. O cérebro tira fotos através dos olhos ou do pensamento.
Sempre gostei de olhar para as imagens, nas coisas, nas revistas, nos gibis, nas telas do cinema, nas imaginações...
Tudo isso constrói um constante estímulo visual.
O motivo pelo qual comecei a fazer uso do celular, o telefone móvel com câmera, foi justamente a “facilidade” de usar um acessório, que quase todo mundo possui e assim se tornar um hábito banalizado e invisível. Faz-se uso de celular como uma extensão do próprio corpo.
Já tive um Motorola G2, fiz muita coisa com ele, inclusive filmes conceituais experimentais. Hoje tenho um MotoG5S.
Fotografar, fingindo estar vendo um vídeo enquanto caminha entre as pessoas pelas ruas, mas na verdade estás a disparar a câmera em modo silencioso com extrema discrição e disfarce. Um verdadeiro ato de coragem.
Fotografo quando percebo e decido que uma cena ou um objeto vale a pena ser registrado.
“A fotografia é o processo de tornar a observação consciente de si mesmo. Uma fotografia registra o que foi visto e ao mesmo tempo o que não foi visto. Ela encontra o seu próprio significado entre dois polos de presença e ausência” (John Berger).
O olho geralmente enxerga o “tudo” nas diversas cenas, geralmente não vê as coisas “invisíveis”. Para obter uma imagem diferenciada e única, deve-se fazer grandes esforços, correr riscos, enfrentar perigo para chegar a um lugar inacessível e inexplorado.
A fotografia é o inventário da mortalidade, já dizia Susan Sontag.
Geralmente, depois de escolher algumas imagens, faço alguns ajustes e realces de cores, cortes... Algumas imagens não precisam de edição, faço apenas um contraste de luz e sombra, utilizando o próprio programa de edição do celular.
Gosto de experimentar, fazer traquinagens surrealistas ou metafísicas com as imagens. Uso a sobreposição de imagens com Pixlr, utilizando duas imagens, às vezes no máximo três ou quatro, tendo o esmero de não tornar um hibridismo visual poluído.
Fiz uma exposição fotográfica, Ode à superficialidade junto com Dalmir Ferreira na Galeria de Arte do Sesc em julho de 2017, outra participação na Universidade Federal do Acre no evento XII Jornadas andinas de literatura latino-americana (Linguagens e Identidades/UFAC) em 2018. Mas a exposição mais usual hoje em dia, é utilizar as redes sociais, Facebook e Instagram. Fazendo postagens de fotopoemas ou poemas visuais. Imagens acompanhadas de poemas ou somente fotos que em si, já considero poemas. Possuo também um Blog Canibal Visual.
Fui selecionado para participar do projeto Foto em pauta na cidade de Tiradentes (MG) e uma coletiva de fotógrafos acreanos na Galeria Consigo em São Paulo. Mas devido a pandemia, tudo está em suspensão.
O uso da imagem é uma discussão delicada. Para fotografar na rua, o êxito é ter uma imagem espontânea, às escondidas. A gente se torna um “ladrão” de imagens. Há algo de perversidade nisso, como disse Diane Arbus.
Não daria tempo de negociar uso de imagem e fazer um registro espontâneo, “o momento decisivo”. Ou fazer a foto e depois correr atrás da pessoa e negociar o tal uso de imagem. Deixemos a mercê da sorte ou do azar.
Continuemos sendo os “fora da lei”, ladrões discretos de imagens em busca incessante, o sacrifício do prazer e das preciosidades, nas palavras de Cartier-Bresson, de “captar a eternidade instantaneamente”.


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